Quatro da manhã, o caminhão da turma para na porta do Valdir. Os homens descem, levantam ele da cadeira e colocam no caminhão. Na beira da roça, descem ele de novo e carregam a cadeira até o meio do canavial. Todo dia.
Valdir tem cinquenta e dois anos. Corta cana desde os catorze. Foram 38 anos de pé no meio da roça. Até que uma cobra picou ele no canavial. O socorro demorou. Tentaram salvar as pernas, não deu. Ele perdeu as duas.
Cortador de cana ganha pelo que corta. Não tem salário no fim do mês: se não corta, não entra nada. Então Valdir voltou. Sentado, do jeito que dá. Corta a metade do que cortava. Mas corta.
Existem próteses que colocam Valdir de pé de novo. O doutor foi claro: ele tem até um ano pra colocar, senão as pernas perdem a forma e as próteses não encaixam mais.
Já se foram oito meses, faltam apenas quatro meses.
Valdir não pede as pernas de volta. Pede pra subir no caminhão sozinho, trabalhar o dia inteiro e ninguém mais precisar carregar ele.
38 anos ele sustentou a casa de pé. Agora faz meses que ele não consegue mais sozinho...
Se quiser fazer parte dessa história, tudo pode começar a mudar para o Valdir, aqui embaixo:
Quatro da manhã e ele já tá na porta esperando o caminhão. Que exemplo de homem.
Os colegas carregando ele até o meio do canavial todo dia. Que turma.
Passei pro grupo da família. Quatro meses passam rápido demais.
Meu pai cortou cana a vida inteira. Sei bem o que é sair de casa antes do sol.
Que homem forte. Força, Valdir.
"Corta a metade do que cortava. Mas corta." Essa parte me pegou.